Amados irmãos e irmãs, bem sabemos que pela sua providência Deus atua na história para realizar o seu plano de amor. Mas não podemos esquecer que a ação de Deus espera sempre pela resposta do homem, que, por isso, se torna corresponsável pela história e pela criação. Assim, quando o homem se empenha em colaborar com o progresso humano e social está colaborando com a providência divina, que atua também através das causas segundas.

A consciência desta realidade aguça a nossa responsabilidade e sensibilidade de cristãos, que não podem ficar de braços cruzados diante da vida esperando soluções miraculosas para realidades que exigem o empenho humano auxiliado pelo concurso da graça e da providência divina. O homem foi feito por Deus custódio da criação, que lhe confiou os seus bens, os seus talentos para que estes fossem multiplicados e colocados à serviço de todos.

Esta tomada de responsabilidade começa, em primeiro lugar, em ser responsável diante da própria vida pessoal. Estamos em um contexto cultural em que a responsabilidade pessoal está totalmente esvaziada. Ninguém responde por seus atos, tudo é culpa de traumas do passado, de condicionamentos culturais. Tudo é culpa da sociedade anônima. Como se por traz desta não houvesse pessoas livres, que podem escolher o bem a despeito do mal que lhe atinge e tantas vezes lhe é oferecido.

Não podemos esquecer, também somos responsáveis pelo mundo que nos cerca. E nosso empenho em multiplicar os talentos da graça, da bondade, da verdade, da liberdade, da responsabilidade, da santidade, da dignidade que Deus nos deu. Não significa curvar-se a este mundo, no sentido de torna-lo melhor, para tornar a existência um pouco mais suportável, uma vez que a vida eterna é uma realidade muito incerta.

Muito pelo contrário, a certeza da vida eterna nos compromete mais profundamente com a vida presente, por saber que o que aqui vivemos ou fazemos, estão vinculados à nossa vida futura. Embora nesta vida os nossos atos sejam efêmeros e passageiros, por menor que sejam, tem sempre consequências eternas.

Por isso, é preciso refletir melhor nossas escolhas de vida, nosso modo de relacionar-se com o outro, com o mundo. Pois este mundo, que sofre por falta de amor, de sacrifício, de doação, de compreensão, de partilha, de conversão, espera ansiosamente pela manifestação dos filhos de Deus (cf. Rm 8, 18-22).

Os filhos de Deus, portadores dos talentos do Senhor, precisam se fazer presentes, na política, na economia, na educação, na Igreja, na medicina, no direito, na ciência, em todos os âmbitos. Para que estas realidades sejam transformadas a partir de dentro. Não adianta somente ficarmos fechados em nossas igrejas, reclamando que o mundo vai mal, que as leis são perversas, que a saúde é desumana, que a politica é corrupta, que a lei é injusta.

Por fim, o mundo cansado, doente, desumanizado, escravizado, espera a manifestação dos filhos de Deus. Mas se dolorosa é a ausência dos filhos de Deus nas estruturas sociais, mais dolorosa é a presença que não faz a diferença, que não transforma, que não confronta. Atitude própria dos cristãos apáticos, medrosos, que tem prática de fé, mas quando atuam na vida pública, escondem seus talentos num buraco, deixam a sua fé na igreja. Ser bom cristão e péssimo cidadão são duas realidades que não se conjugam. Seja por covardia, por conveniência ou outras razões. Assim, o Evangelho nos convida a não deixar o mundo privado dos talentos que Deus nos confiou, para que a face da terra seja renovada, à luz dos desígnios de Deus.

Pe. Hélio Cordeiro

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